Nossa expedição teve início em 19 de novembro de 2004 e concluímos em 05 de dezembro de 2004.
Rota escolhida: Face Noroeste ou Rota Normal.
A expedição Aconcágua foi a segunda etapa de um projeto pessoal que denominei "PROJETO 3 CONTINENTES", que pretende atingir o cume da montanha mais alta do continente africano, americano e europeu.
A 1ª etapa foi o Monte Kilimanjaro (5895 m), na Tanzânia, África, concluída em 2002 e a terceira e última etapa será na Rússia o Monte Elbrus, com 5642 m.
Santiago (no Chile) foi nosso ponto de partida. Em 6 horas de viagem subimos a cordilheira até 3300 m e descemos até Mendoza, a 756m, numa sinuosa e belíssima estrada.
Na fronteira do Chile e Argentina um amontoado de carro e gente. Passaporte, formulários, burocracia...
Mendoza foi uma grata surpresa. Limpa, plana, muito arborizada (graças aos canais de irrigação que cortam toda a cidade) e um povo extremamente gentil. Para os apreciadores, a cidade produz os melhores vinhos da Argentina. Caminhar pelas ruas para comprar ou alugar os últimos equipamentos é uma festa e jantar nos inúmeros restaurantes com mesas nas calçadas, sob a copa das árvores, um grande prazer.
Mendoza
Antes de subir o Aconcágua, optamos por fazer a aclimatação na cadeia de montanha em Cordon Del Plata, próxima a Mendoza. A montanha escolhida foi Vallecitos, com 5500 m.
Primeira parada foi no acampamento-base de El Salto, a 4200m. Ficamos abrigados na tenda de apoio e socorro, pois a mula com parte das nossas coisas, incluindo a barraca, só chegou as 10:00 da noite. Foram 3 dias ininterruptos de muita neve, vento e, naturalmente, um frio de rachar.
No dia do ataque ao cume, uma tempestade de neve e vento, além de alguns "sustos" ocasionados por escorregões nos fizeram retornar ao acampamento-base antes do objetivo. Estávamos a 5000 m.
Desgaste psicológico, mau tempo e baixa estima fruto da desistência, são alguns dos obstáculos vivenciados por quem se aventura no Aconcágua.
No dia seguinte, descemos, saímos de Cordon Del Plata e fomos direto para o Parque Provincial do Aconcágua. Devido a alguns contratempos, só chegamos a Puente Del Inca, onde está a portaria do Parque, às 9:00 da noite. Apesar da hora, resolvemos não descumprir o nosso cronograma e seguimos até Confluência, a 3300m.
Parque
É um longo trecho. Após atravessarmos o Rio Horcones, subimos uma encosta não muito longa, mas bem inclinada. Depois iniciamos uma travessia chamada "Playa Ancha", ou Praia Larga. Embora de aclive suave, o chão de cascalho e o vento inclemente tornam este trecho um tanto quanto desgastante. Ao final de Playa Ancha somos surpreendidos por uma placa que indica que estamos apenas na metade do caminho, ou seja, ainda faltam 4 horas pela frente e as perspectivas não são nada animadoras: o novo trecho é chamado de Cuesta Brava. Precisa dizer mais?
Algumas mulas não resistem ao esforço e são abandonadas pelo caminho.
Mula
Placas
O helicóptero tem múltiplas funções. Desde transportar suprimentos ou equipamentos para os guarda-parques até resgatar doentes ou feridos que retornam dos acampamentos superiores. Ah, e resgata, também, os mortos. Sim, o Aconcagua mata. Mesmo sua Rota Normal mata com mais freqüência do que imaginamos. Normalmente são vítimas de edema pulmonar ou cerebral causado por problemas com a aclimatação.
O dia seguinte ao da chegada a Plaza de Mulas foi destinado à aclimatação. Levamos parte dos nossos equipamentos e suprimentos para as bases de "Canadá" e "Nido de Condores" e retornamos a Plaza de Mulas.
Um descuido com os óculos e com o protetor solar me acarretou sérias queimaduras no rosto e nos olhos e quase pôs fim à viagem. Pelo grau de cansaço que eu me encontrava, eu não teria achado má idéia.
Mas nada como um dia após o outro. Esta é uma verdade na montanha. Sim,não se deve subestimá-la, mas não se pode subestimar, também, uma noite de sono (ainda que mau dormida) e um belo dia de sol. Portanto, se estiver pensando em desistir, deixe para tomar a decisão pela manhã.
Após um reforçado café da manhã com direito a alguns luxos, como mesa e cadeiras, rumamos para Canadá.
No caminho, a visão de Plaza de Mulas que agora ficava para trás, ou melhor, para baixo.
ACAMPAMENTO CANADA - 4900 m
Jairo prepara o jantar na cozinha improvisada. A partir daqui, a água para beber e cozinhar seria obtida com o derretimento da neve.
Um longo caminho que nos levaria à próxima etapa, Nido de Condores.
Canada
Abrigamos nossa barraca próximo as rochas. O vento aqui é forte e intenso.
Chegar em um novo acampamento significa terminar um esforço e começar um outro, tão intenso quanto. A rotina de montar a barraca era ingrata, pois tínhamos que buscar pedras para amarrá-la e fazer um pequeno muro ao seu redor para protegê-la do vento. Além de muitas, as pedras tinham que ser pesadas, sob pena do vento carregar a barraca. E carrega mesmo. Conclusão: chegávamos cansados, faltando ar para respirar e ainda tínhamos que carregar pedras e buscar neve para derreter. Eu me sentia, praticamente, em um campo de trabalhos forçados da Sibéria.
A montanha também nos surpreende positivamente. Conhecemos dois bons amigos: os espanhóis Luiz e Jose.
Agora nosso destino era Berlim.
Nido de Condores
"Ai, ai, ai, o que que eu tô fazendo aqui??"
Refúgio
Nos levantamos as 5:00 e começamos a arrumar as coisas enquanto o Jairo preparava nossa "bomba" de aveia, castanha e passas. Tudo demora, tudo é lento porque tudo cansa. Calçar a bota cansa, arrumar a mochila cansa, tudo cansa.
Saímos 7:30. Éramos 7 pessoas. Nós 3, Luiz e José, um alemão e outro italiano que ficaram conosco no refúgio. O termômetro marcava -17º.
Descanso a 6.400 m!
Deste ponto falta muito pouco para o cume. Qualquer passo, porém, é um esforço sobre-humano, o que torna a menor das distâncias uma pequena eternidade. Teimosamente, continuamos avançando.
O famoso e temido Viento Blanco indicando vento forte e frio intenso.
Viento Blanco
Pico Aconcágua
Temos todo um caminho de volta pela frente. A 7000 m há menos da metade do oxigênio presente no nível do mar para suprir as necessidades vitais do nosso organismo, dentre elas, manter-se consciente, de forma que manter a concentração é uma dificuldade e perdê-la pode ser fatal. Muitos dos acidentes em alta montanha ocorrem justamente na descida quando a sensação de dever cumprido, como um canto de sereia, ilude-nos, levando-nos à distração e aos acidentes.
A temível face Sul do Aconcágua
No dia seguinte, já em Plaza de Mulas, fizemos um merecido jantar de comemoração.
Brindávamos muitas coisas: ter chegado ao cume, ter voltado de lá, não ter mais que subir e descer morro com uma mochila de 20 kg nas costas...
Mas brindávamos, especialmente, o aniversário de 1 ano do Janjão (meu filho), que comemoraríamos após o meu retorno para casa.
Comemoração: Aniverário de João!
Agora só olhávamos para o longo caminho de volta.
Foram 13 dias de montanha. Frio, cansaço, falta de ar, desconforto, saudade, angústia, e tudo isto por quê ou para quê??
Esta não é uma pergunta simples e eu não sei a minha resposta.
Para estar mais próximo de Deus? Para estar mais próximo de mim mesmo? Por que a Juliana diz que eu volto um homem melhor da montanha? Porque eu gosto do longo processo de preparação e planejamento? Ou simplesmente para ter histórias para contar para os meus filhos?
Talvez por tudo isto.
Talvez, também, por não ter uma resposta pronta e querer sempre buscá-la na próxima montanha.
O Aconcágua deixou marcas. Na alma...e na cara.
Marcas
O Aconcágua nos deu as boas-vindas com uma linda e clara noite de lua cheia. Tão clara que dispensamos as lanternas, tão linda que se tornou uma das melhores recordações da viagem.
Em breve você vai poder conferir a galeria de fotos completa desta aventura.
Juarez Gustavo Pascoal Soares